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No Brasil, Papa deve reforçar gestos contra pecados que desafiam igreja

Longe dos aposentos espaçosos do antecessor e mais próximo dos fiéis, Papa Francisco mostra um conjunto de gestos que aos poucos se transforma em mensagem do seu pontificado, segundo vaticanistas e estudiosos da religião ouvidos pelo G1.

Para eles, se a crise da Igreja Católica coubesse apenas dentro da clássica lista dos sete pecados capitais, Francisco já teria dado exemplos diretos de como encontrar as primeiras saídas.

Os sete pecados capitais, listados por Tomás de Aquino e utilizados na Divina Comédia por Dante Alighieri, resumem concepções teológicas daquilo que os fiéis devem evitar. O novo Papa, que já se disse pecador, afirmou em maio que admitir os erros é o primeiro passo. Para os especialistas, Francisco tenta mostrar na prática como iniciar a caminhada.

Os especialistas afirmam que, desde seu primeiro ato após a eleição, Francisco busca a contramão da soberba. Para o doutor em religião pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo Eulálio Figueira, traços desse pecado aparecem quando representantes da Igreja Católica a proclamam como a única capaz de oferecer a salvação ou se fecham para o diálogo com outras religiões.

O cientista da religião Afonso Ligorio concorda com a avaliação. “A cúpula da Igreja se acha melhor do que o fiel comum. É autoritária, com excesso de doutrinas, ensina dando ordens, mandando teólogos calarem a boca”, disse.

Figueira lembra que, quando o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, já eleito Papa em 13 de março, foi apresentado à multidão na Praça de São Pedro, ele pediu orações do povo ali presente e se inclinou. “Demonstrou naquele momento que não é autossuficiente, ou seja, não consegue atuar sozinho e que vai precisar da ajuda de todos”, avalia.

Ao longo de quatro meses de pontificado, Francisco recebeu lideranças de outras religiões, inclusive na posse. Brenda Carranza, doutora em sociologia da religião da PUC-Campinas, cita ainda a amizade de 20 anos entre o Papa Bergoglio com o rabino Abraham Skorka. “[Um Papa] ter um amigo judeu significa que é capaz de dialogar com pessoas diferentes, aceitar posturas não cristãs. Isso significa a valorização da diferença”, conta.

O pecado da gula, o ato de comer e beber em excesso, é relacionado pelos especialistas com alguns comportamentos dentro da Igreja Católica, sobretudo com o que chamam de “egoísmo”.

Para os estudiosos, parte do clero costuma cair em tentação e buscar autossatisfação em vez de atuar pelo próximo. Na avaliação, os estudiosos também ligam a raiz desse pecado à interferência do consumismo e à espetacularização das atividades dentro da igreja, que transformam a religião em “diversão”.

Brenda Carranza aponta a busca por consumo de produtos católicos, como CDs e DVDs de padres religiosos, como comportamento que pode levar o fiel simplesmente ao espetáculo, sob o risco de o afastar do propósito único da religião, que é dar sentido à vida.

“Essa espetacularização da igreja é deixar-se ser tragado pelo falso aplauso da massa. Hoje, os heróis dos seminaristas são os padres midiáticos e não os antigos bispos que lutavam, como Dom Helder Câmara (arcebispo emérito de Olinda e Recife, que morreu em 1999) ou Dom Paulo Evaristo Arns (cardeal e arcebispo emérito de São Paulo)”, complementa Afonso Ligorio.

Para ambos, Francisco estaria sinalizando uma “cura” para esta variação da gula quando, em audiência pública realizada em maio, admite-se pecador, ato que simbolizaria um processo de reformulação da igreja que deve ser mais voltada à humildade e simplicidade.

Quanto ao pecado literal da gula, o historiador Leandro Karnal, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que o Papa pediu para a visita ao Brasil que sejam servidas refeições simples, preparadas por freiras e não por chefs de cozinha, já acostumados com grandes banquetes.

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