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Médica presa diz ter sido vítima da revolta de antigos funcionários

Novos trechos da entrevista concedida aoFantástico pela médica Virgínia Soares de Souza, presa desde o dia 19 de fevereiro e suspeita de apressar mortes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) geral do Hospital Evangélico, em Curitiba, mostram o questionamento com relação às testemunhas do caso, que, segundo ela, são antigos funcionários “revoltados com o hospital”. A ex-chefe da UTI nega as acusações. “Nunca fui negligente”, diz.

Durante a entrevista, Virgínia não quis ser filmada. A gravação foi autorizada pelo juiz da Vara da Corregedoria dos Presídios, Moacir Antônio Dala Costa.

“Os denunciantes são os antigos funcionários, que têm dívidas trabalhistas astronômicas, muitos deles chegaram, eu não sei se isso é verdade ou não, a perder o seguro desemprego. Eles não se conformam que o hospital esteve aberto, então eu acho que eu fui o alvo mais fácil pra que (…) por que não foi só a mim imputado, muitos declarantes disseram que todo o hospital sabia, a diretoria sabia, era voz corrente, portanto houve tentativa de desmoralização não só da minha pessoa como médica, de quem trabalhava comigo, mas das pessoas idôneas que dirigem o hospital, dos gerentes que dirigem, o hospital, enfim, tudo”, aponta.

Virgínia completa e diz que foi um instrumento de “escárnio”.  “E de (…) uma forma das pessoas se vingarem já que o hospital não tem muitas condições de cumprir seus problemas trabalhistas”.

Durante as investigações, 1,7 mil prontuários de pacientes que morreram no setor foram recolhidos pela polícia. Destes, ainda segundo a polícia, 26 casos são suspeitos.

A médica era funcionária do hospital desde 1988 e chefiava a UTI geral há seis anos. Inicialmente ela foi indiciada pela polícia por homicídio qualificado e formação de quadrilha. Outras cinco pessoas suspeitas de envolvimento no caso também foram indiciadas pela polícia pelos mesmos crimes. Uma delas, uma médica, responde em liberdade.

Ainda na entrevista, a Virgínia declarou que “a inocência e culpa tem que estar relacionada a um fato comprovado”. “Nunca fui negligente, nunca fui imprudente, nunca tive uma infração ética registrada, uma queixa e exerci a medicina de forma consciente e correta”.

A médica afirma ainda que erros podem ter acontecido, mas jamais de maneira intencional. “Eu não sou Deus, não sou perfeita. Nada mais fiz do que exercer com a maior dignidade possível e com respeito aos pacientes a medicina intensiva”, disse.

Ministério Público
Em nota, o Ministério Público informou que, por meio da Promotoria de Justiça de Proteção à Saúde Pública de Curitiba, ajuizará nesta segunda-feira (11) denúncia sobre os crimes ocorridos no caso. O anúncio será feito em uma coletiva de imprensa, marcada para as 14h.

O inquérito tem mais de mil páginas e 32 horas de gravações telefônicas feitas entre os dias 23 de janeiro e 7 de fevereiro deste ano.

Primeira denúncia oficial
A primeira denúncia feita à ouvidoria do estado sobre o caso partiu de uma fisioterapeuta que também trabalhou na UTI geral do hospital.  Ela contou durante depoimento à polícia que resolveu levar o caso adiante [para a polícia] porque o hospital “não iria tomar as providências necessárias”. Ela declarou que chegou a avisar a superintendência do Evangélico sobre o fato.

De acordo com o inquérito, ela contou que havia uma rotina de diminuição dos parâmetros do respirador na UTI geral do hospital. Ela disse, inclusive, que presenciou o procedimento com um paciente que tinha sido vítima de acidente de motocicleta.

A testemunha relatou também que a médica Virgínia “se dirigiu ao respirador, diminuiu os parâmetros e o paciente entrou em óbito no dia seguinte”.

Uma carta escrita pela fisioterapeuta foi obtida com exclusividade pela produção do telejornal Paraná TV 1ª edição. Em um dos trechos ela conta que era chamada por Virgínia de “lerda” e “tartaruga”. “Me sinto totalmente desrespeitada”, diz. Na carta, ela não faz nenhuma menção à acusação de que a ex-chefe da UTI antecipasse a morte de pacientes. 

Falta de provas
O advogado de defesa, Elias Mattar Assad, disse que não há provas sobre os crimes relacionados à Virgínia. “O que provaram até agora é que morreram pessoas, mas que esta causa tenha tido um objetivo criminoso prévio não está provado”, avalia.

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