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Mato Grosso possui mais habitantes negros que a média nacional

Com 60% da população negra, Mato Grosso supera a média nacional em número de habitantes afrodescendentes. Dados do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que, dos 3.035.122 mato-grossenses, 1.820.597 se autodeclararam pretos e pardos. Em todo o país, o percentual de negros, somando pretos e pardos, é de 51%, que corresponde a 90 milhões de pessoas.

O percentual de negros no estado, na avaliação do sociólogo Paulo Alberto dos Santos Vieira, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Educação, Gênero, Raça e Auteridade (Negra), ligado à Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat), se deve a dois fatores. Um deles é o alto número de nordestinos que migraram para a região em busca de trabalho e melhores condições de vida. “Mato Grosso é um estado que teve um crescimento vertiginoso nos últimos 40 anos e há uma falsa impressão de que as pessoas que migraram para cá são brancas”, afirmou.

Ele exemplificou que, no Censo de 1980, o IBGE apontou que em Sinop, a 503 km de Cuiabá, 25% da população era negra. “Naquela época, quando muitos moradores do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná [região onde a maioria dos habitantes se autodeclara branca] se mudaram para o norte do estado, já tinha um negro para cada branco”, pontuou o sociólogo. “Essas migrações são marcadas pela negritude. Muitas delas aconteceram por causa de garimpo e da indústria madeireira”, frisou.

Além da migração de negros de outras regiões do país, ele atribuiu a quantidade de negros no estado pela miscigenação entre negros e indígenas, que já viviam na região. A maior parte desses habitantes negros é do sexo masculino. Quase um milhão dos pretos e pardos são homens e possui de 15 a 44 anos de idade.

Em Cuiabá, conforme levantamento do IBGE, a maioria da população é negra. São 359.770 negros e 180.950 brancos.

Apesar da maioria da população mato-grossense ser negra, faltam representantes negros nas esferas de poder. Em Mato Grosso, não houve nenhum governador e nenhum senador negro e atualmente não há nenhum deputado estadual e federal afrodescendente.

Na Câmara de Vereadores de Cuiabá, município onde 55% dos habitantes são negros e pardos, só há um vereador que se autodeclara negro. Juca do Guaraná Filho, do PT do B, afirmou que o preconceito existe, mas que é preciso 'dribá-lo'. “Sabemos que o preconceito existe, mas sempre corri atrás do que queria e tive a oportunidade de conquistar uma vaga na Câmara. Nunca me fiz de coitadinho”, disse. Porém, ele alegou que nunca pediu que os eleitores votassem nele por ser negro, mas pelas suas propostas de campanha.

O parlamentar avalia que a superação e a conquista de espaço vem acontecendo aos poucos, principalmente se levar em consideração que há 125 anos o negro era escravizado pelos brancos. “Ao negro foi negado todos os direitos, menos o direito de conquistar os direitos”, enfatizou.

Violência
Em julho deste ano, um estudo de violência divulgado pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos (Cebela) revelou que a quantidade de negros assassinados no estado representa praticamente o triplo do que a de brancos vítimas de homicídio. A pesquisa mostra dados referentes a 2002 até 2010, quando 1.988 negros e 799 brancos foram assassinados, ou seja, para cada branco, 2,4 negros são mortos. Em oito anos, houve redução de 24,9% na morte de pessoas brancas e aumento de 18,3% no homicídio de negros.

O índice de negros mortos em Cuiabá é, proporcionalmente, semelhante ao do estado. Num universo de 100 habitantes, foram 179 negros assassinados e 41 brancos. Das capitais brasileiras, somente em Curitiba a taxa de homicídios de negros foi menor que a dos brancos.

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