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Famílias à beira de trilhos resistem à obra do VLT para Copa em Fortaleza

Moradores de quatro comunidades de Fortaleza (CE) não querem deixar suas casas para a implantação do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), obra do pacote de mobilidade da Copa do Mundo 2014 na cidade. As moradias das famílias ficam às margens da Via Expressa, e com a resistência em sair do local, o projeto pode ficar inviabilizado. O governo do estado afirma, no entanto, que a obra será finalizada a tempo do Mundial

O G1 publica, entre 9 e 15 de dezembro, uma série de reportagens sobre os preparativos para a Copa do Mundo 2014. Segundo levantamento, 75% das obras de mobilidade estão atrasadas ou foram descartadas.

O novo ramal Parangaba-Mucuripe do VLT terá 12,7 km de extensão em via dupla – 11,3 km em superfície e 1,4 km em elevado – e cruzará 22 bairros, fazendo conexão entre a estação Parangaba e o porto do Mucuripe.

O governo aproveitou a linha desativada de trem intermunicipal para implantar o VLT, mas moradores de Trilha do Senhor, Lauro Viera Chaves, Comunidade das Flores e São Vicente de Paula se recusam a deixar suas casas à beira dos trilhos.

O governo informou que 2.185 desapropriações são necessárias, número que anteriormente já foi de 3 mil. Na Trilha do Senhor, foram quatro anos de resistência, mas famílias foram obrigadas pela Justiça a abrir as portas de suas casas para técnicos. Há três semanas, foram iniciados o cadastro e a medição das 300 casas que deverão ser removidas.

“Depois dessa medida cautelar, a gente foi obrigado a abrir as portas. Muitos moradores se sentirem coagidos e preocupados em ter força policial”, afirma a confeiteira Cássia Sales, moradora há 41 anos do local.

“Agora está todo mundo à espera dos laudos com os valores das avaliações. Se a gente tiver de sair, que seja o menos impactante possível, que seja um valor para poder comprar um imóvel adequado perto daqui”, diz ela.

Segundo a Secretaria de Infraestrutura do Ceará (Seinfra), o número de desapropriações será consolidado quando todos os cadastros forem realizados. Até novembro, 99,2% das negociações renderam acordo, 50,38% foram pagas e 0,77% foram parar na Justiça, informou o órgão.

Para os moradores da Trilha do Senhor, o VLT serve como “desculpa” para remover a faixa carente do bairro nobre de Aldeota, onde a comunidade está localizada. “O que a gente queria mesmo era permanecer. Mas a luta vai continuar, estamos levando nossas reivindicações”, afirma Cássia Sales.

A Defensoria Pública afirma que 5 mil famílias serão afetadas com as obras do VLT em Fortaleza. O órgão e o Ministério Público Federal entraram com ações para questionar as desapropriações, despejos e o projeto da obra. A ação foi favorável ao estado em primeira instância, e o MP recorreu.

Lembranças
O artesão Ivanildo Teixeira Lopes, de 47 anos, é líder comunitário em Lauro Vieira Chaves, no bairro Vila União, outra área atingida pelas obras do VLT. Ao todo, 66 famílias saíram de suas casas na comunidade. “Para ser sincero, de coração, estou meio acabado por dentro. É muito difícil. Agora, a lembrança da minha casa só por foto”, diz.

Com a alteração do projeto, 137 famílias permaneceram no local. “Para mim, é VLTS, Veículo Levando teus Sonhos. Os sonhos de muita gente estão com o entulho do chão agora. Além da tristeza, ainda há poeira e o barulho deixando todo mundo doente”, completa Lopes.

Segundo a Seinfra, para imóveis de até R$ 40 mil, o dono recebeu indenização, uma unidade habitacional financiada pelo governo e um aluguel social de R$ 400 por mês até o apartamento ficar pronto. Se não optar pelo imóvel, recebe auxílio social de R$ 6 mil. Para os de mais de R$ 40 mil, o proprietário fica responsável pela quitação da unidade cedida pelo Executivo.

Lopes vai morar a três quarteirões de onde estava sua casa, onde serão construídos 80 apartamentos para famílias desapropriadas pelo VLT. “Aqui podemos colocar as cadeiras na calçada, não tem criminalidade, nossos filhos podem andar pelas ruas”, relata.

Caminho das Flores
No caso da comunidade Caminho das Flores, no bairro Parangaba, 45 famílias deixaram suas casas, mas reergueram os imóveis na rua dos fundos. Eles agora reclamam que a rua ficará mais estreita do que o previsto pelo governo, passando de cinco para três metros.

“Vai ser um gueto. Nenhum carro passa direito. Quando a gente vai argumentar, dizem (Seinfra) que fizeram o cálculo errado, que não estava previsto. A gente vai acabar perdendo”, afirma o professor de história Thiago de Souza.

Segundo o professor, as condições de acesso para os moradores estão difíceis durante as obras. “Até um mês atrás, a gente tinha que descer um barranco para chegar às casas. Tem idoso aqui. Não tem pavimentação na rua, muita areia. O governo está fazendo o VLT, mas não está preocupado com o entorno”, reclama.

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